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O medo de fracassar e o que é fracassar

O título desse texto parece ser meio confuso, não é?

É que foi difícil para mim começar a organizar as minhas ideias sobre o que realmente é fracassar, e o que a sociedade atual pensa que é fracassar.

Fiz menos sentido ainda, eu sei, mas vamos pensar um pouco em uma situação histórica e hipotética: Muito antigamente, as maiores profissões que poderia trazer dinheiro eram ministério e homens da lei. Estudando o século XVII e XVIII, entendemos que, o filho mais velho herdava as posses do pai, ou sua profissão se eles fossem de uma classe mais baixa, o segundo filho se tornava um homem do ministério e o terceiro filho, um homem das leis. Depois, vieram os comerciantes e em algum momento, os médicos e engenheiros se tornaram tão necessários que a profissão ganhou muito glamour.

Pois bem, chegamos a ainda atual trindade profissional em que a sociedade assume serem as mais prestigiosas: medicina, direito e engenharia. Apesar de existirem um leque enorme de profissões, no campo de exatas, biológicas e humanas, essas três ainda são as mais visadas. Como saber disso? Cursinhos pré-vestibulares literalmente anunciam isso para o mundo, colocando ali somente alunos que passaram em universidades nessas áreas.

Isso reforça um pensamento que a própria sociedade tem, especialmente na hora de pagar por um serviço (apesar de existirem ramos na engenharia bem desvalorizados). O médico é caro, mas ele é médico. O advogado é caro, mas é advogado. O designer do meu logo para o meu comércio? É caro demais, vou procurar outro até encontrar o que, precisando de dinheiro, faça a preço de bananas.

Por reforçarmos a importância (e não estou dizendo que não seja importante) dessas profissões, supervalorizamos seus serviços e aceitamos os preços dispostos à nós. Ao mesmo tempo, desvalorizamos profissões que não são essas, e colocamos barreiras para um crescimento econômico em outras áreas. Temos a concepção de que uma cabelereira não poderia, por exemplo, fazer uma viagem para Europa, porque ela é cabelereira (eu ouvi um cara falando isso essa semana, e estou tentando digerir isso até agora). Temos a concepção de que um psicólogo que cobra mais do que 50 reais em uma sessão é um usurpador e nem é necessário fazer terapia assim.

Nossa, 150 reais por um ursinho de crochê? Que absurdo, não me importa as horas, dias e material que você gastou, está pensando que é médico?

Os esforços dos profissionais nas áreas de medicina, direito e engenharia devem sim serem valorizados. Mas também devemos valorizar as outras profissões da mesma forma. Reforçando apenas essas três, dizemos aos nossos jovens que ele nunca vai ser bem sucedido se escolher fazer artes cênicas, ou não fazer faculdade, ou fazer quatro. Enquanto continuarmos a dizer que apenas essas três profissões trazem sucesso, e ao mesmo tempo nos recusando a pagar o valor devido em outras profissões, estamos constatando que aquela pessoa que escolheu outra coisa vai fracassar.

O conceito de fracasso é uma coisa muito estranha. Fracassar é não suceder, é falhar. Mas por que consideramos uma escritora, um artista, ou uma administradora, ou uma lojista, ou qualquer outra pessoa em outra profissão um fracassado? Se ele esta fazendo o que ama, se ele esta feliz ali fazendo o que gosta, por que chamados de fracasso algo assim?

O medo de fracassar é o medo de falhar, e quando um jovem pensa em não seguir na “trindade do sucesso” é exatamente isso que ele pensa: que ele vai fracassar.

Como você pode fracassar fazendo o que ama?

Maria

O estranho (novo) mercado de peixes digital

Não sei vocês, mas eu acho ser solteira na era da quarta revolução industrial difícil. Essa é a chamada de era digital, e também da era de menos contato.

É uma mescla de fatores que leva a criação dos aplicativos de namoro: falta de tempo + falta de habilidades sociais + praticidade de não precisar tomar um fora logo de cara. Continuar lendo O estranho (novo) mercado de peixes digital

Profissão: Críticos de redes sociais

Eu já fiz isso. Você também.
Hoje é a profissão mais popular, sem salário e com horas extras: os críticos de redes sociais.

O que nos leva a cruelmente criticar cada aspecto da vida de alguém? O que nos torna especialistas em como alguém deve viver, agir, pensar, criar e ser?

Acontece que não é um trabalho novo. É um trabalho mutável. Antes, consumíamos conteúdos criticáveis em revistas de fofocas. Britney Spears e a Princesa de Gales, Diana, são as provas vivas de que a sociedade pode te massacrar pelo esporte de falar sobre você. Era quase uma compulsão, conseguir conteúdos sobre os aspectos das vidas de celebridades, a ponto de nos sentirmos tão íntimos e integrados em suas vidas que achávamos um absurdo eles se fecharem para o público e pedirem privacidade. Nem mesmo a tragédia de ambas as figuras publicas que usei de exemplo nos refrearam. A princesa morreu de forma trágica fugindo dos paparazzi. A cantora teve um colapso nervoso em frente as câmeras e ninguém ajudou.

Em algum ponto, as redes sociais foram a libertação para esses artistas. Ali, eles continuavam objeto de grande interesse, mas tinham uma ferramenta poderosa em mãos: o poder da escolha sobre o que compartilhar. Um grande exemplo disso é a família Kardashian, o programas delas Keeping Up With the Kardashians nos permite uma proximidade com a família e seus dramas, e suas redes sociais sempre alimentam isso, mas existe uma barreira, entre elas e seu público, já que elas escolhem exatamente o que compartilhar e quando compartilhar.

Essa ferramenta mágica que aproxima Hollywood de pessoas normais se tornou também um canal para ataques. Ao permitir a proximidade, ao exporem suas vidas, as celebridades abriram, sem querer, a possibilidade das pessoas opinarem a cada passo que davam. Os julgamentos, antes concentrados em fofocas entre pessoas, ao lerem as revistas, foram transcritos em comentários, tweets… O público não entendeu que a parede que os separava e distanciava dos seus ídolos não ruiu apenas porque eles criaram uma conta no instagram. E o público também deixou de entender a diferença entre crítica e ataque.

Esse costume de julgar os famosos ficou tão incrustado na população que ao vermos um post de um amigo ou de um desconhecido, nos sentimos na liberdade de confrontar se não concordamos, de criticar se não gostamos. Acontece que a permissão não foi dada, e que a parede continua erguida, entre nós e as celebridades, entre nós e desconhecidos. O simples fato de alguém postar algo não nos da permissão para fazer uma crítica violenta.

Outro ponto que soma, é o fato das pessoas ultrapassarem a tênue linha entre liberdade de expressão a ataques gratuitos. A crítica deixou de ser construtiva e passou a ser um ataque. Utilizamos o canal de comunicação para descontarmos toda a frustração que temos em nosso dia-a-dia. Utilizamos os espaços de comentários para sermos deliberadamente maldosos e cruéis.

E virou algo automático. Quando foi a última vez que você fez um comentário legal e bondoso? Que viu uma foto bonita e que seu primeiro pensamento não foi algo negativo? Quando foi que nos tornamos venenosos e cruéis?

As redes sociais nos aproximam e nos afastam. Nos deixam felizes e tristes. Criam expectativas e as destroem com a mesma velocidade em que carregamos uma foto. Somos reféns delas, e somos seus escravos. E não sabemos utiliza-las para o bem.

Então proponho um exercício: quebrar o ciclo. Curta uma foto e comente com bondade. Elogie alguém. Espalhe o bem.

 

Com amor, Maria